2015-2016 é diferente de 1963-1964

17/02/2017 16:47

Analistas do quadro político-institucional brasileiro costumam fazer analogias entre a situação atual e a de 1964, quando o Brasil também foi vítima de um golpe de Estado patrocinado por interesses externos, conduzido internamente pela nossa conhecida e execrável oligarquia e seus capachos.

As duas situações são, no entanto, completamente diferentes, embora o resultado imediato e mais evidente venha a ser o mesmo: a interrupção da construção de uma democracia sólida, inclusiva, distributiva; e a tentativa de destruição de um projeto de nação soberana, independente, afirmativa.

Em 63-64, o que havia era um país ainda dominado pelas velhas famílias, com alguns segmentos dissonantes instalados nos grandes centros do Sudeste, Sul e Nordeste, numa época em que mal se iniciava, em torno das capitais dessas regiões, um caótico processo de concentração urbana.

Naquele ambiente, o Governo João Goulart e suas Reformas de Base representaram uma expectativa de nação, uma esperança concebida por uma elite intelectual alinhada ao pensamento europeu mais progressista, com forte apoio das nascentes lideranças operárias constituídas a partir da incipiente industrialização nacional.

Essa expectativa de nação é que foi ceifada, no contexto da Guerra Fria e de uma alegada "ameaça comunista".

Muito mais informada e crítica do que a geração de 2015-2016, embora em menor número, a juventude de 1963-1964 teve força e ímpeto para se rebelar, combatendo o golpe de Estado e sendo por ele esmagada, juntamente com a elite intelectual e as lideranças operárias progressistas.

Naqueles anos, a importância dos veículos de comunicação era residual, digamos assim, pois os jornais e rádios (a televisão estava apenas começando) exerciam papel secundário, de meros coadjuvantes do regime de exceção que se instalou no País. 

Em 15-16, a situação, como sabemos, é totalmente diversa e muito mais complexa.

Para começar, o golpe de Estado assume um caráter cínico, pois dispensa o uso da força militar, concentrando-se na costura de uma aliança que reúne os poderes legislativo e judiciário, tendo, agora sim, a sustentação concreta, ativa, fundamental, do que hoje se denomina mídia (ou media), que são o conjunto dos meios de comunicação de massas. Internet incluída.

Diferente de 63-64, o golpe de agora teve como pano de fundo os interesses de grupos econômicos internacionais dos segmentos de petróleo e financeiro (dentre outros), operados internamente em associação com os representantes e capachos da velha oligarquia brasileira corrupta e dependente dos cofres municipais, estaduais e federais.

Ao contrário de 63-64 — e esta é a diferença fundamental — o golpe de 15-16 não enfrentou uma expectativa de nação.

Desde o fim da ditadura militar, em 1985, que o Brasil vinha retomando o seu projeto democrático e progressista. A vitória de Lula, em 2002, possibilitou a realização desse projeto, o que passou a ser feito de forma efetiva, contrariando os interesses oligárquicos em benefício da inclusão social, mas, por vezes, contaminando-se pelas velhas práticas clientelistas que sempre condenou.

Assim, repito, o golpe de 15-16 não se deparou com uma expectativa, mas com uma democracia efetivamente inclusiva, distributiva, e com uma nação soberana, independente e de fato presente no mundo.

Por isso, sem dúvida, é que, passados poucos meses da consumação do Golpe Cínico, a opinião pública vem expressando seu reconhecimento às conquistas sociais e econômicas que já havia adquirido — sob os governos Lula e Dilma —, percebendo que já começa a perdê-las. E não quer isso.

A explicação é que, ontem, o ciclo da informação era de 24 horas (o tempo entre uma edição e outra dos jornais, o meio de comunicação que realmente importava nos anos 60 do século passado) e hoje, neste século da internet e das redes sociais, a informação é instantânea. Para o mal, mas igualmente para o bem.