Ah, a Marina

04/10/2013 14:24

Quem, afinal, se enganou com a dona Marina Silva? Alguém a levou a sério no dia em que ela assumiu o Ministério do Meio Ambiente do então Presidente Lula e deitou falação sobre "transversalidade", essa bizarra tese segundo a qual as decisões de governo deveriam submeter-se à lógica do ambientalismo? Alguém acreditou, em algum momento, que essa aparentemente afável senhora possuiria consistência política ou seria capaz de conduzir um governo federal sem deslumbramentos?

 

Nestes dias em que a dona Marina lamenta a rejeição ao registro de seu partido — a tal Rede —, pelo Tribunal Superior Eleitoral, tenho a consciência tranquila para afirmar que ela nunca me enganou. Nunca a vi como uma praticante da ética. Seu comportamento no episódio do chamado "mensalão", por exemplo, foi execrável, oportunista, incapaz de negar o que, mesmo para ela, estava claro: tratava-se de caixa dois de campanha, e não da compra de parlamentares (inclusive do PT, o que é risível) para votar a favor de projetos de interesse do governo.

 

Li o Manifesto de seu Partido e não vi ali muito mais do que um aglomerado de boas intenções, como são os manifestos de quase todas as legendas. Isto se compra na esquina, com o camelô, adaptado ao momento e às circunstâncias. O que interessa num partido político, muito além de declarados bons propósitos, é o histórico de conduta de suas lideranças. E no caso da Rede, essa condição está comprometida.

 

Não vejo dona Marina como modelo de nada realmente construtivo; vejo-a mais como um risco de retrocesso civilizatório. Como é que pode, nesta altura do campeonato — apesar de todos os imensos erros cometidos ao longo da história da espécie —, uma pessoa que pleiteia a liderança de um país tão importante e com um futuro tão promissor como o Brasil, uma pessoa com essa pretensão admitir — como ela já fez um dia, embora depois tenha desdito — a possibilidade de o homem não ser fruto de um processo evolutivo via seleção natural? Isto é um fato cientificamente provado! Is

 

Fico imaginando como ela conduziria o seu governo, sob a ótica da tal "transversalidade". Sua Rede aponta para os grandes sonhos da humanidade e se coloca quase como detentora única do mapa da transformação. Ignora a experiência acumulada e desdenha de seus resultados, sem perceber que usufrui daquilo que condena. Não, dona Marina, este mundo de merda em que vivemos é uma terra mais complicada. E não será a sua Rede — cujo nome usurpa uma ideia que é coletiva — o instrumento eleito para realizar a mudança. Esta se dará pelos caminhos tortuosos em que vai se dando. Não carece de novos condutores de massas. Chega!