Descompasso

31/07/2013 14:31

Enxergar nesse processo apenas o que lhe é periférico — qual seja, a sua instrumentalização por este ou aquele segmento ideológico — é mostrar evidente má-fé.

 

O processo são as mobilizações de massas que vêm ocorrendo no mundo, cujos críticos reduzem a mero voluntarismo manipulado e potencializado pela direita ideológica. No Brasil, por exemplo, dizem que serviram e servirão tão-somente para enfraquecer o governo progressista de Dilma, apontando como prova a sua queda em pesquisas de opinião logo após as manifestações de Junho, pretendendo com isso antecipar o comportamento dos eleitores a mais de um ano das urnas.

 

Sim, é bom que tais alertas sejam feitos; é preciso que alguém os faça. Mas também é razoável apontar a legitimidade das recentes manifestações de massas (apesar das manipulações concretizadas ou tentadas), creditando-as — como dizem algumas das vozes mais lúcidas — ao legítimo desejo por mais e melhores condições de vida, expresso por contingentes da população recém saídos das camadas historicamente marginalizadas.

 

É incrível o descompasso existente entre as ciências exatas e as ditas ciências sociais. E não é por falta de pensamento abstrato de qualidade. Não é por ausência de filosofia. Kant, Hegel, e tantos outros, estão aí para provar. Mesmo em Marx, onde se alicerçam tantas teorias de endeusamento do proletariado, a falta de certeza quanto ao futuro está posta. Não foi ele, Marx, o demonizador da burguesia, a ela atribuindo todos os males da civilização moderna. Quem fez isto foram os seus fracos intérpretes e divulgadores, figuras menores, intelectualmente limitadas, emocionalmente comprometidas e, estes sim, personagens socialmente daninhos.

 

E, no entanto, sociólogos, cientistas políticos e até economistas de hoje julgam-se no direito de fazer análises definitivas sobre este ou aquele evento histórico contemporâneo, colocando-os à direita ou à esquerda de um certo espectro político-ideológico, sem qualquer concessão ao relativismo geral da vida. E isto, pasmem, em plena era da mecânica quântica e da nanotecnologia.