Nem tudo está explicado

09/12/2016 21:26

As ideias centrais do eBook que venho elaborando desde 2012 — Do que se fazem as salsichas, fruto do processo de aprendizagem, intuições e ousadias intelectuais iniciado quando eu me vi nesta cidade de Santos, há 53 anos — são de que a nossa espécie é, sim, resultado das experiências acumuladas ao longo dos tempos em que estamos reunidos em sociedade.

A melhor e mais bem acabada teoria para explicar tal processo coube a Karl Marx e Friedrich Engels, fundadores do socialismo científico oficialmente lançado em 1848, com o "Manifesto Comunista". Trata-se de um texto magnífico, sempre atual, visionário porque olhou o mundo a partir de sua montanha mais alta, projetando-se para além dos tempos.

É fato, porém, que a construção teórica de Marx-Engels está alicerçada nas relações humanas primordialmente organizadas, ainda que com vistas à sua mera sobrevivência. E as experiências reunidas pela espécie antes mesmo de o homem estar embrionariamente organizado? E as impressões que foram se acumulando em seu cérebro, nervos, músculos e ossos, enquanto esse ser transitava rumo à condição de racional, de homo sapiens?

Há de se aceitar que esse longuíssimo caminho tenha deixado marcas profundas e determinantes de um tipo de comportamento, em cada um dos seres fundadores da nossa espécie. Marcas que mais adiante haveriam de conformar o comportamento dos grupos e das sociedades, as quais até hoje carregamos.

"A ideia de Deus teria nascido de um impressionante fenômeno meteorológico", me disse um amigo, um dia, em tom de piada.

Assim, é bom saber que o coletivo é resultado das relações de produção e das lutas de classes — como verdadeiramente o são! Mas nunca devemos perder de vista que, antes do coletivo, muito antes do coletivo está o indivíduo, aquele indivíduo de certa forma vislumbrado por Stanley Kubrick, talvez sem a sugestão mística de "Uma Odisséia no Espaço" (1968).

Nada disso é frivolidade. Os tempos que vivemos estão fazendo emergir (e de forma planetária, via redes globalizadas) o que de pior se incutiu na alma humana, desde os seus primórdios. É preciso entender isto. É necessário que conheçamos a origem dos nossos medos.