O fim das certezas

01/08/2013 14:30

E, no entanto, sociólogos, cientistas políticos e até economistas de hoje julgam-se capacitados para fazer análises definitivas sobre este ou aquele evento histórico contemporâneo, colocando-os à direita ou à esquerda de um certo especto político-ideológico, sem qualquer concessão ao relativismo geral da vida. E isto, pasmem, em plena era da mecânica quântica e da nanotecnologia.

 

Nenhum intelectual, nesta altura da História, pode aceitar ser assim nomeado se limitar seu interesse a um único segmento do conhecimento humano. É impossível saber tudo sobre tudo; sempre foi. Mas é dever de quem pensa e, mais ainda, de quem publica o que pensa informar-se e compreender os avanços de todas as ciências. Todas, de preferência.

 

O homem é um ser complexo — talvez o mais complexo —, inserido nesta realidade cósmica que está se revelando mais misteriosa do que — à moda de Shakespeare, em Hamlet — julgava 'nossa vã filosofia'. O sociólogo, por exemplo, não tem o direito de externar opiniões definitivas sobre nada. O mesmo se dá com o economista e o cientista político; esta, então, uma categoria intelectual que nem mesmo existe, pois o exercício da política é incompatível com o que preconiza o método científico — qual seja, a possibilidade de se experimentar e chegar aos mesmos resultados propostos na teoria.

 

Se as pessoas que pensam o homem como ente físico, psíquico ou social, e disso fazem uma profissão, se dispõem a elaborar e publicar suas ideias, que o façam com honestidade intelectual. É preferível publicar menos e pensar melhor. Isto implica relativizar toda e qualquer 'certeza' a respeito das coisas que dizem respeito ao ser humano. Se até as verdades da física e da matemática estão sob permanente revisão, frente aos novos conhecimentos, por que, com que autoridade se pode fazer afirmações categóricas a respeito do corpo, da alma e das relações sociais?

 

Agissem assim esses especialistas, e o nosso cotidiano estaria menos poluído com tantas 'certezas' precárias, promotoras de confusões mentais nas pessoas e de entropias sociais. Agissem assim, é certo que as bibliotecas conteriam menos livros, mas, ao menos, seriam livros melhores e mais úteis ao avanço da espécie.