O jogo a ser jogado

10/10/2013 14:22

Erram os países hegemônicos ao manterem em pleno séc. XXI a velha rotina da Guerra Fria — espionagem a tudo e a todos; imposição de penalidades, sob a alegação de ameaça à segurança nacional, a quem revela as práticas condenáveis de seus próprios dirigentes, sem que façam o imprescindível mea culpa; apropriação indevida e manutenção pela força do status de líderes incontestáveis, entre outras atitudes que nestes dias estão destituídas de qualquer valor. Sendo mais enfático: trata-se mesmo de uma imensa burrice histórica.

 

É incrível como as lideranças desses países, tanto aquelas que conduzem seus governos quanto as que exercem influência sobre eles, não percebem que estão gastando todo o capital político acumulado imediatamente após a última Guerra Mundial, quando as nações vencedoras — com méritos e deméritos — forjaram no imaginário das pessoas a ideia de que era possível construir a felicidade. Ou, se percebem, não conseguem encontrar caminhos que lhes permitam fazer a transição para fora desta armadilha que ajudaram a criar.

 

O mais grave, neste cenário de agravamento de tudo o que é nocivo à preservação da espécie — fome, exploração do próximo, individualismo, superpopulação, desperdícios e seus reflexos sobre a vida, traduzidos na violência banalizada, tanto a social quanto a de Estado —, o mais grave nesse cenário é que não se vislumbram alternativas factíveis. Olhamos em volta e o que vemos são as pessoas, todas as pessoas, caminhando perplexas e resignadas para o abismo, diferindo apenas na forma de cumprir o seu trajeto — com mais ou menos sofrimento.

 

Nem mesmo as religiões têm sido capazes — não mais — de garantir a dose de conformismo e aceitação cotidiana que estavam acostumadas a prover. Sobra a visão projetada por José Saramago em seu Ensaio Sobre a Cegueira. E ainda bem que tal visão nos foi dada pela mente desse homem, porque são nessas 'sementes do mal' que ainda depositamos alguma esperança — o jogo novo que tem de ser jogado.