O papa no Brasil

24/07/2013 14:35

Passou o tempo dos subentendidos, que só alimentam a entropia. A vinda do papa Francisco ao Brasil, nesta semana de julho, deve ser exposta naquilo que tem de real: trata-se de um derradeiro esforço destinado à reconstrução do Catolicismo, a partir, é natural, da tentativa de conquistar o jovem, este eterno herdeiro do futuro.

 

A igreja, todas as igrejas, estão em acelerado processo de esvaziamento de seus discursos, mercê da hipocrisia e incoerência com que se têm conduzido ao longo de suas existências. Mesmo aquelas que subsistem graças à manutenção de crenças e práticas extremistas, mesmo estas haverão de enfrentar o julgamento de quem as professa, caminhando para a desmoralização decorrente do desmonte de seus dogmas. Esse caminho é inevitável. Basta olhar a história das religiões.

 

Digo derradeiro esforço porque os ingredientes responsáveis pela erosão das religiões já estão postos e vêm realizando sua química sobre cada vez mais largos segmentos sociais. São eles: o individualismo exacerbado, a comunicação globalizada, a busca da satisfação instantânea.

 

O primeiro, por sua natureza, não dá lugar à empatia, requisito fundamental para a prática piedosa. O segundo, embora se proponha a promover a aproximação das pessoas, não serve à solidariedade religiosa, mas à ação política. O terceiro, por sua natureza imediatista, destina-se ao exclusivo atendimento das necessidades terrenas.

 

Junte-se a esses ingredientes o avanço das ciências, em todos os campos do conhecimento — com o consequente desnudamento de mistérios milenares —, e têm-se o cenário completo do ridículo em que se transformam as promessas de salvação frente aos desafios cósmicos recolocados. E não exatamente pelos mistérios sempre renovados, mas porque agora tais mistérios deixam de ser associados a promessas de paraísos.

 

Se o papa Francisco despe-se da imponência que sempre caracterizou a figura dessa liderança religiosa, isto significa, apenas, que a igreja católica apostólica romana corre na tentativa de recuperar o tempo perdido, como se isto ainda fosse possível. Não é. E talvez nunca tenha havido a possibilidade desse tempo. Mesmo sem enfatizar a tese de determinismo histórico.

 

Afinal, como se pode falar de determinismo quando a falência de um modelo está contida já em suas premissas? O fato é que, hoje percebemos — e de forma cada vez mais clara —, as igrejas foram construídas sobre as ruínas do homem.