O que é essencial

31/07/2013 14:31

Nessas situações também não cabe tolher, impedir, censurar tais manifestações, mas combatê-las à luz da lógica e da prova de sua desrazão. Não têm razão, por exemplo, quem após a recente visita do papa Francisco ao Brasil reduz a importância do novo lider católico, deliberadamente confundindo a irrelevância em que se colocou essa igreja, nas últimas décadas, com uma pretensa desimportância do catolicismo e das religiões em geral.

 

Uma coisa é estar convencido do forte argumento filosófico de que a religião é apenas uma etapa na História, inevitável — alguns dirão imprescindível — enquanto o homem não alcança a emancipação da espécie; e também reconhecer os malefícios produzidos pelas instituições religiosas, todas, em detrimento da construção dessa plena humanidade.

 

Isto é uma coisa. Outra, bem diferente, é negar o valor das religiões no processo histórico, argumentando, para isso, contra as figuras sempre claudicantes de seus líderes. Não é o caso desse papa Francisco, que, ao contrário do que afirmam seus críticos, vem demonstrando estar sintonizado com as particularidades deste momento singular.

 

Pode-se condenar, em Francisco, o apego a dogmas que já deveriam estar sendo revisados por sua igreja — caso da sexualidade, ainda um tabu, quando sabemos tratar-se de necessidade fisiológica, tanto quanto é meio de multiplicação da espécie. Valoriza-se apenas o último aspecto, atribuindo-lhe transcendência indevida, e ignora-se o primeiro, com suas implicações sobre a libido e o tenso diálogo entre os 'instintos de viver e de morrer'.

 

Pode-se, ainda, contestar seu diagnóstico de que o catolicismo vem perdendo terreno frente a outras religiões devido à carência de padres para atender as comunidades, pois isso não é causa, mas consequência da dessintonia entre a instituição que ele comanda e a vida das pessoas. O que não se pode ignorar é a mudança colocada por sua liderança.

 

Do mesmo modo, continuar desqualificando aqueles que argumentam em favor da novidade contida nas mobilizações de massas que vêm ocorrendo mundo afora, organizadas a partir da utilização das redes sociais globalizadas, também é uma bobagem. Enxergar nesse processo apenas o que lhe é periférico — qual seja, a sua instrumentalização por este ou aquele segmento ideológico — é mostar evidente má-fé.