O valor de Lula

16/04/2017 11:12

Ontem, me ative à administração possível da coisa pública brasileira implementada por Lula e Dilma, a qual denominei 'revolução possível', em contraposição às chamadas 'revoluções de fato', ditas proletárias, esclarecidas, fundamentadas nas proposições de pensadores pretensamente inauguradores de escolas filosóficas. Tais como Marx e Engels.

Hoje, lendo manifestações de outros não menos influentes porta-vozes progressistas, tenho a dizer aos poucos que aqui frequentam o seguinte: também não tenho ídolos. Nunca os tive, aliás. Posso afirmar que sempre desconfiei das pessoas, seres humanos iguais a mim, que por um ou outro motivo passaram e passam a pleitear um lugar num panteão. Ou que lá foram e são colocados.

Lula não é meu líder. Do pouco que dele pessoalmente conheço — só o vi falando em público uma única vez —, concluí o que quase todo mundo conclui: o cara sabe se comunicar, cometendo todos os deslizes gramaticais, ideológicos, religiosos (e o que mais se quiser), comuns a quem muito fala e sabe estar se dirigindo a público culturalmente diversificado. Lula, portanto, não é meu líder, mas o considero um ser humano admirável. Penso, até, que sem Lula o Brasil estaria hoje muito pior.

É irônico como a História vai se construindo, mas, provavelmente, se Lula e o PT não tivessem decidido se aproximar das forças políticas de centro para conquistar a Presidência em 2002; se, com isso, não tivesse sido obrigado a enfiar a mão na massa do clientelismo nacional (o tal governo de coalisão); se tivesse podido resistir à centenária influência da plutocracia nos negócios de Estado; se tivesse sido 'revolucionário' no sentido clássico do termo, seguramente nem teria chegado ao poder, quanto mais realizado os avanços sociais que promoveu nesses 12 a 13 anos.

Nem mesmo esta saneadora onda anticorrupção em curso no Brasil teria sido deflagrada sem a presença do PT no governo. Não apenas porque Lula e Dilma proporcionaram os meios e instrumentos para que os órgãos públicos atuassem livremente em suas investigações, mas também porque foram as políticas inclusivas de seus governos que despertaram a sanha assassina da oligarquia velha de guerra, ameaçada em seus privilégios, associada aos interesses internacionais sobre as nossas riquezas.

Tenho hoje 68 anos. Vivi algumas das décadas mais iconoclastas da História, em todos os campos do conhecimento e da ação humana, a começar pelo começo dos anos 60, quando primeiro me entendi por gente (talvez). Desde então tenho observado muito, ouvido muito, lido muito, pensado outro tanto. Não me venham, portanto, com dogmas. Não me venham apontar caminhos infalíveis, porque sei que não os há. A vida é uma eterna experimentação.

Longe de um darwinismo social (digo logo), penso que a tarefa do homem consciente é buscar caminhos que levem a espécie a avançar rumo à sua emancipação, essa grande e nobre utopia. Nesse sentido, Lula se impõe como figura rara, pois, ao mesmo tempo em que realiza a sua 'revolução possível', encoraja outros de sua estirpe a que façam o mesmo.

Não cobrem de Lula, portanto, a atitude de um revolucionário. Até porque os revolucionários que a História reconhece também cometeram muitos erros e suas revoluções se frustraram (com imenso custo em vidas) exatamente porque ignoraram a verdade basilar de que os grupos sociais e as sociedades são constituídas de seres humanos. E o ser humano é, em sí, um mistério único, individual, intransferível.

Se o Lula vai ser condenado e preso pela Lava Jato, sob quaisquer pretextos, pouco importa nesta altura dos acontecimentos. O que importa é que ele já deu sua contribuição para uma grande parcela do povo brasileiro avançar um pouco no nobre caminho. Isto é fazer História.