Retrato da paisagem brasileira - IV

05/03/2017 11:11

Hoje é dia de digressões, o que nos melhores dicionários se define como "divagaçãos", "excursões", "passeios", etc.

Pois bem, passeando pelo atual momento brasileiro — sob inequívoca influência dos humores internacionais —, o que percebo é a existência de uma guerra civil em pleno curso.

Não uma guerra civil clássica, com cidadãos armados opondo-se a forças federalistas (ajudadas por estadualistas) usurpadoras, cínicas e, naturalmente, corruptas.

Não, a guerra civil em curso é de um tipo bem brasileiro, onde o poder do estamento (na abordagem de Raymundo Faro, em seu fundamental "Os Donos do Poder") faz milhões de vítimas, sim, mas desta vez sabendo que seus injustiçados vêm adquirindo consciência cada vez maior, mais clara, plena e ampla das razões de suas desgraças.

Foi preciso um golpe de Estado — perpetrado contra uma presidenta honesta, retirada do poder sem crime de responsabilidade por uma quadrilha de corruptos filhos da puta, associada a significativas parcelas de um Judiciário acovardado e/ou vendido e/ou deslumbrado, junto com uma mídia historicamente safada —, foi preciso, repito, um criminoso golpe de Estado, o mais cínico que o estamento poderia perpetrar nos estertores de sua existência, para que a classe das vítimas enfim despertasse.

O que fazer?

A História se dá assim, por linhas tortas, achando atalhos sociais condizentes com a alma de cada povo.

A nossa é essa, informal, indisciplinada, inculta, insolente.

Pressinto novos ares soprando desde o Atlântico, invadindo aos poucos esta parte do Continente sulamericano, arejando consciências, clareando argumentos, burilando ideias, recuperando ideais e utopias rumo a um novo salto de civilidade e civilização em nosso País.

As águas do São Francisco haverão de nutrir e banhar esses novos tempos. 

Amém!