Simplificando tudo

01/10/2013 14:26

Eu não gosto do jeito de jogar do Barcelona de Messi e Iniesta. Penso que aquilo não é exatamente futebol, mas "doistoquismo", uma variante desse esporte normalmente praticada nos treinamentos de posse de bola pelas equipes, levada aos 90 minutos regulares de uma partida. 

 

Considero, até, que deveria ser criada uma Federação Internacional de Doistoquismo (FID), onde se abrigariam os times interessados em praticar a modalidade, e todos seguiriam suas vidas, felizes. Mas tal coisa não vai acontecr, então, enquanto Messi e Iniesta tiverem fôlego, muitas outras vitórias do Barcelona haverão de ocorrer, construídas em cima da exasperação mental e do esgotamento físico de seus adversários.

 

Se isso que o Barcelona pratica é quase um antifutebol, pois circunscreve a curtos trechos do vasto campo o confronto entre as equipes na disputa pela bola e na busca pelo gol — retirando do esporte original a beleza de sua amplitude plástica (a propósito, nos jogos do Barcelona deveria ser obrigatória a distribuição de binóculos para a platéia) —, se isso é quase um antifutebol, repito, a modalidade "doistoquismo" ao menos serve para uma coisa: demonstra por A mais B que simplificar é sempre uma opção eficaz; mesmo que simplificar signifique arriscar um passe mais ousado, apostando no desconcerto físico do seu marcador.

 

O poder da simplificação cabe bem neste momento da história, em que se discute se o advento da internet e das redes sociais faz ou farão diferença nas relações entre as pessoas, em especial nas relações políticas. Atordoados pela realidade em progresso, desconcertados mesmo, pensadores apegados aos velhos dogmas de esquerda contestam a força de novidade, apontando o perigo de que ela se destine a excluir — por exemplo — a intermediação dos partidos no exercício da democracia. Quase do mesmo modo, pensadores apegados aos velhos dogmas de direita se iludem, julgando que o comando das ações lhe pertence, apenas porque dominam os tais meios de produção.

 

Pois o futuro não parece descortinar nem uma coisa nem outra: a intermediação de partidos políticos não deixará de existir (apenas será diferente) e os usuários dos aparelhos eletrônicos conectados não haverão de ser sempre manipulados (os partidos políticos, entre outras coisas, terão a função e o dever de esclarecê-los). É simples assim, como o "doistoquismo". O resto é o velho e manjado medo do futuro.