Uma nova resistência

04/06/2016 10:16

Teme-se que o Brasil de 2016 esteja repetindo o script do período 1964-1968, quando a resistência levou à edição do Ato Institucional nº 5 e foi implantada a Ditadura Militar, com fechamento do Congresso, cassação de mandatos parlamentares, prisões de quaisquer opositores ao regime, guerrilhas, torturas, assassinatos políticos etc. — http://cpdoc.fgv.br/producao/dossies/FatosImagens/AI5.

 

Penso que, agora, esse receio não tem fundamento. O Golpe de Estado da década de sessenta, além da característica oligárquica-militar, estava enraizado no contexto da Guerra Fria e pôde se realizar e consolidar graças à facilidade de se conter as reações pontuais e localizadas, num ambiente psicossocial administrado por alguns poucos grupos de comunicação de propriedade das mesmas oligarquias golpistas que haviam conspirado para derrubar Jango Goulart.

 

Em 1964, o mundo estava claramente polarizado entre a URSS e EUA. Nesse ambiente, a posição do Brasil era a de coadjuvante, submetido aos interesses norte-americanos, sem qualquer possibilidade, interesse ou perspectiva de vir a assumir posições autônomas e independentes dos interesses ideológicos, políticos e estratégicos da nação hegemônica. A um país com esse status não se admitiriam veleidades esquerdizantes, mesmo que meramente reformistas, como eram as intenções de Jango.

 

Tão logo os primeiros interesses da oligarquia foram contrariados ou enxergaram-se ameaças aos seus centenários privilégios, as tradicionais famílias proprietárias do Brasil correram a buscar apoio externo para efetivar a derrubada do regime democrático pela via de um golpe parlamentar, com apoio das Forças Armadas doutrinadas pelos conceitos da Guerra Fria. A reação de intelectuais, operários e estudantes a esse golpe, desenvolvidas particularmente no Rio de Janeiro e em São Paulo, levou ao AI-5 e à sucessão de governos militares encerrada apenas em 1985.

 

Comparando-se com 2016, resta como semelhança apenas a articulação da classe política na perpetração do Golpe de Estado. Ainda existem os interesses oligárquicos (familiares, em especial do segmento das comunicações), mas os predominantes, agora, são os da plutocracia, o poder do dinheiro, que nem mesmo fronteiras nacionais possui, em particular pela entrega das reservas de petróleo e gás do pré-sal às grandes empresas exploradoras do exterior e pela garantia de polpudos ganhos financeiros no mercado de títulos do Governo.

 

De carona com esses macro objetivos, o Golpe de 2016 serve ainda aos interesses da classe política brasileira de se safar das investigações sobre a corrupção, deflagradas a partir das condições criadas pelos governos do Partido dos Trabalhadores, iniciados em 2003, quando foram proporcionadas condições operacionais à Polícia Federal, independência ao Ministério Público e ausência de ingerência no Judiciário. Mesmo com o partido do governo colocado, seletivamente, como alvo preferencial dos investigadores e juízes, o Executivo petista não cedeu às pressões para aliviar o combate aos desvios do dinheiro público.

 

Subsidiariamente a esses dois, juntam-se os interesses das oligarquias que dominam os velhos meios de comunicação (televisões, jornais, rádios), que estão falindo desde o surgimento da internet, como ocorre em todo o mundo, e buscam desesperadamente os recursos governamentais, seja por meio da veiculação de propaganda, seja através de empréstimos a baixíssimo custo junto às instituições oficiais de crédito (BNDES, Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal). Para se ter uma idéia, ao menos três desses grupos (Folha, Abril e O Globo) investiram nas últimas décadas alguns milhões de dólares, cada um, na implantação de 'modernos' parques gráficos que, de repente, se transformaram em elefantes brancos frente à era digital.

 

É nesse cenário geopolítico (onde se incluem a abertura do comércio exterior do Brasil, a nova dimensão da nossa diplomacia e o advento do grupo dos BRICS, por exemplo), bem como o dos interesses internos difusos (e às vezes contraditórios), que a resistência democrática de 2016 se insere.

 

As 'armas' para que o Golpe de Estado em curso no Brasil NÃO 'evolua' para uma ditadura militar, como ocorreu em 1968, é que são a grande novidade: a globalização da resistência via meios de comunicação de alcance planetário, com a utilização massiva das redes sociais (twitter, facebook, youtube, periscope, blogs etc). Tal realidade é incontornável e detém um 'poder de fogo' ainda a ser mensurado. Esta experiência brasileira talvez seja a mais ousada nesse sentido, tanto por parte daqueles que intentam o Golpe quanto destes que o combatem.

 

Lamentavelmente, só nos resta constatar, mais uma vez, o acerto do que disse Karl Marx, há uns 150 anos: "A história se repete, a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa". É o que temos visto no dia a dia patético, quase risível, se não fosse trágico, do governo interino do usurpador Michel Temer.