O mundo (imoral) que vivemos

27/01/2018 13:55

Em recente entrevista ao site Intercept — "Vivemos no mundo da servidão por dívida" —, David Harvey, um dos principais pensadores marxistas da atualidade, professor de Antropologia e Geografia na City University de Nova York, discorre sobre vários aspectos do estado da sociedade dos nossos dias, e não apenas a norte-americana.

Sobre a ascensão de Trump, por exemplo, diz ele que se deveu ao fato de as pessoas estarem cada vez mais alienadas. Alienadas do processo de trabalho, "porque não há muitos trabalhos com propósito e significado por aí". E também porque "prometeram a esses trabalhadores uma espécie de cornucópia ["Fonte de abundância", entenderam, delegados, promotores e juízes da força tarefa da Lava Jato?], um espaço no qual encontram muitos produtos, mas que não funcionam bem, e acabam tendo de comprar um novo a cada dois anos. Um estilo de vida lhes é imposto e as pessoas estão desiludidas. E claro que estão desiludidas também com o processo político, pois percebem que quem tem o dinheiro compra o que quiser".

Mais adiante, ao falar sobre o neoliberalismo, Harvey explica:

"Eu considero que é um projeto político que começou em 1970, com a Mesa de Negócios (associação dos presidentes das maiores empresas dos EUA), os Rockfellers e todos os demais, para reorganizar a economia de forma a restaurar o poder de uma classe capitalista em declínio. Eles estavam em dificuldades no final dos anos 1960, começo dos anos 1970, porque o movimento dos trabalhadores estava muito forte, e havia vários ativistas comunitários, o movimento ambientalista, todas essas forças de reforma surgindo, a criação da Agência de Proteção Ambiental, todo esse tipo de coisa. Eles então decidiram, por meio da Mesa de Negócios, que iriam realmente tentar recuperar e acumular o máximo de poder econômico que pudessem".

Uma das consequências dessa reorientação do sistema de poder ocidental, sob a liderança norte-americana — na análise de David Harvey —, foi, por exemplo, de que "se você se visse diante de uma situação de ter de escolher entre resgatar pessoas ou resgatar os bancos, você resgataria os bancos e deixaria as pessoas em apuros". Ou seja, "sempre que você encontrasse um conflito entre o capital e o bem-estar das pessoas, você escolheria o capital. Essa era a forma resumida do projeto". 

Diz ele que, para algumas pessoas, essa é só uma "ideia sobre livre mercado. E, realmente, é livre mercado para alguns; responsabilidade individual, sim". Mas é principalmente "uma redefinição de cidadania, de forma tal que o bom cidadão é o cidadão sem necessidades. Então, qualquer cidadão com necessidades é uma pessoa ruim. Os serviços sociais são organizados para punir as pessoas, não para realmente dar assistência e ajudá-las".

Em outro ponto, Harvey aborda a tão decantada questão da austeridade do estado [aqui reproduzida na famigerada "Ponte para o Futuro", do traidor-corrupto Michel Temer]: "Austeridade, sim, mas não para o capital. Não para as instituições financeiras em absoluto, não para o 1% do topo. A austeridade diz respeito aos programas sociais. E, de fato, o estado está profundamente envolvido em subsidiar o capital. Os bancos nunca se ferem [ou se ferram, digo eu]. É isso que constitui a ordem neoliberal".

A conclusão que se tira dessa análise é que estamos em meio a um ciclo da História que, claramente, ainda não se esgotou. Muitas desgraças sociais e individuais nos aguardam. Estas, por exemplos, que estamos a viver no Brasil dos nossos dias, onde, pra piorar, o Judiciário, a menos autorizada das instituições de estado — pois não foi empoderada pelo voto, mas por concurso público — assume o comando, manipulando descarada e criminosamente as regras democráticas a serviço dos interesses do grande capital.

E, de sobra, tirando uma casquinha em benefício próprio, por meio de pornográficos salários e benefícios autoconcedidos.

Claro, pois ninguém é de ferro, certo?!